20 de outubro de 2016

Leituras: blogue Os Voluntários Reaes: 1814-1824



Sugestão de leitura
OS VOLUNTÁRIOS REAES
blogue

No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824. 


Comemorando o bicentenário da campanha de Montevidéu 1816-2016


http://dvr18151823.blogspot.pt/

13 de janeiro de 2016

Do nascimento e família



Vista da Rua das Trinas, Lisboa, à entrada 
da actual (então rua) do Pé de Ferro
Lecor


ORAÇÃO 
‘Deos Mestre das sciencias, que as escondestes aos grandes do mundo, 
e que as revelastes aos pequenos, fazei-nos a graça de que tomemos o estudo 
por penitencia, a fim que o que aprendermos seja sem erro, e sem vaidade.’
Luiz Pedro Lecor, Lição XL, das obrigações de hum menino Cristão. Educação de Meninos, 1746

Carlos Frederico Lecor, mais propriamente Carolus, como escrito no seu assento de batismo, nasce a 6 de Outubro do ano de 1764, na rua Pé de Ferro (hoje travessa), no bairro de Santos-o-Velho, na zona ocidental de Lisboa. A sua mãe é D. Quitéria Luísa Marina Krusse Lecor, 20 anos, de Vila Nova de Portimão. O pai é Luiz Pedro Lecor, de Paris, próximo dos quarenta anos de idade.

Nascida a paróquia de Santos-o-Velho da Praia ribeirinha, todas as suas casas e ruas descem sobre o rio Tejo; a paróquia não dista 50 passos de um lado ao outro. Em 1758, apenas seis anos antes de Carlos nascer, e três após o grande terremoto de 55, Santos-o-Velho tinha 1836 fogos, e 8403 pessoas de confissão, além de mais de mil, os hereges e não constados do rol de confissões. Este número era em 1758 já superior, apenas três anos após a catástrofe.

Carlos foi batizado nessa mesma igreja paroquial, catorze dias após o seu nascimento. O seu padrinho e também seu tio materno, Carlos Frederico Krusse, deu-lhe os nomes próprios. A sua tia, D. Vitória Berarda Marciana Krusse, de 19 anos, foi a madrinha.

Nos anos seguintes, ainda em Santos, nascem os irmãos de Carlos. João Pedro nasce dois anos depois, a 7 de Outubro de 1766, a pequena família agora residindo na rua São João da Matta, a um pequeníssimo quarteirão da rua Pé de Ferro. António Pedro, a 6 de Setembro de 1768, Jorge Frederico e Maria Leocádia Leonor, muito possivelmente em 1770 e 1772.

Carlos Frederico e os seus quatro irmãos  nascem numa família alargada de comerciantes e homens de negócios, de múltiplas origens europeias, como os Buys, de Hoorn, na Holanda, os Krusse, de Hamburgo, ou os Lecor, de Paris e Marselha. A própria natureza dos negócios destas famílias os fazia estar frequentemente nesses portos europeus, embora tivessem escolhido Portugal para assentar e criar família.

Os Krusse

Hamburgo (1)
A profícua prole de Nikolaus Krusse e D. Catarina Maria Buys, os avós maternos de Carlos, nasceu entre 1733 e 1750 em Portimão. Tiveram sete filhos. Nikolaus, ou Nicolao, era um negociante proveniente de Hamburgo que assenta raízes familiares em Portimão, casando-se com D. Catarina Maria.
Nikolaus passou primeiro por Pernambuco, nos anos 20 do século, no El Dorado brasileiro, onde era sócio de um Pedro Graaf, holandês, mas num processo iniciado em 1726, motivado por alguns comerciantes portugueses descontentes, foram ambos chamados a Lisboa. Ficou definido que em razão das nacionalidades e respetivas implicações diplomáticas, Pedro Graaf poderia ficar, mas já Nikolaus Krusse deveria abandonar a praça. Fê-lo, a contragosto, no início de 1730, montando loja em Portimão.
Tiveram nessa cidade algarvia em 1733 o seu primogénito, Carlos Frederico Krusse, tio-padrinho de Lecor, e mais seis filhos, incluíndo a mãe de Carlos, D. Quitéria Marina, em 1744, e a madrinha, D. Vitória Berarda, um ano depois.

Carlos Frederico Krusse assume o negócio de seu pai, desde que este falece, em 1758, em Santos-o-Velho. É bastante provável que a família tenha vindo para Lisboa, após o Terremoto de 1755 ter destruído boa parte de Portimão, assim como provocado estragos substanciais na maior parte das terras litorais do Algarve. A Igreja paroquial da Nossa Senhora da Conceição, no centro de Portimão – onde pelos menos seis  Krusse foram batizados, era no final de 1755, apenas ruínas.
Ainda assim, o Algarve manteve sempre a sua importância nos negócios da família, nomeadamente a exportação de alfarroba e alecrim para o Norte da Europa e o envio de trigo alentejano pelo Guadiana para Lisboa. Forma, pelo menos desde a década de 1770, a Costa, Krusse e Companhia, com Manuel José Gomes da Costa, importante negociante da praça de Faro. Esta sociedade, para lá da exportação de produtos algarvios, emprestava dinheiro, estabelecendo com força a identidade social de homens de negócio, que trabalham a grosso, e já longe do simples retalho. Carlos Frederico Krusse é também cônsul da Holanda em Faro.

Os Buys

Hoorn, Holanda
A avó materna de Carlos, D. Catarina Maria Buys Krusse, era filha de Jan Pieter Buys, holandês, e de D. Maria Teresa, espanhola  de Huelva (Guelba, dir-se-ia então), em Espanha.  Jan Pieter, grafado João Pedro nos documentos, veio da cidade holandesa de Hoorn (a norte de Amsterdão) para Portugal, assentando raízes em Faro, no reino do Algarve.
António Pedro Buys, irmão de D. Catarina e tio de Carlos, teve, com D. Teresa Maria cinco filhos, todos sensivelmente da mesma geração de Carlos, e que convivendo em Faro, partilharam as brincadeiras com os primos Lecor. João Pedro, primogénito e herdando o nome do avô, nasce em março de 1765, sendo apenas cinco meses mais novo que Carlos Frederico. Vitória Teresa nasce em 1769 e Germana Máxima Guilhermina em 1771.

O mais velho, João Pedro Buys, assume mais tarde os negócios da família, em 1794, após o falecimento do seu pai, constituindo sociedade com Carlos Frederico Krusse. Ambos eram donos de uma frota de caíques  que leva  trigo dos portos alentejanos do Guadiana para Lisboa. Ainda antes, em 1791, é cônsul de França no Algarve, facilitando a comunicação entre mercadores. João será também tenente-coronel do Regimento de Milícias de Faro. O seu compromisso com a sociedade farense é claro, não só pelo referido acima, mas pelas inúmeras ocasiões em que João é padrinho de batismo, tanto na Sé, como em S. Pedro. É ele que representa a Junta de Faro na revolta de 1808, juntos dos barcos ingleses, em virtude de ter bom domínio da língua inglesa.

(1) Aquarell "Prospekt der Kaiserlich Französischen Stadt Hamburg" von Johann Marcus David, 1811

12 de janeiro de 2016

O Apelo d'Armas, ou uma família de Portugueses no início das Guerras Revolucionárias

P: Como se chamão aquelles, q trazem espada para o serviço do Estado? 
R: Chamão-lhes gente de guerra, ou soldados.
Luiz Pedro Lecor, Lição XXX, das Leys Humanas. Educação de Meninos, 1746

Faro, Novembro de 1793.

Por esta altura, finais da década de 1780, uma mudança começava a fazer-se notar na sociedade portuguesa, fruto das convulsões políticas europeias, produto da onda de choque que foi a Revolução Americana.

É assim que, em 1787, mais por causa dos piratas do Norte de África do que propriamente da situação europeia, o Conde de Vale dos Reis, capitão-general dos Algarves, escreve uma carta à rainha D. Maria pedindo a construção de quartéis para o regimento de artilharia de Faro, ainda na sua maioria aboletado nas casas de cidadãos, desde que fora formado em 1776. Se esta carta é escrita a 27 de Novembro, logo a 1 de Dezembro, a vereação de Faro dá início a uma petição, recolhendo as assinaturas de quem estava nas Casas da Câmara, e depois indo às ruas chamar os que cidadãos que lá se achassem a assinar a importante petição. Entre as várias assinaturas, temos Carlos Frederico Krusse, ao topo, e Carlos Frederico Lecor e João Pedro Buys, mais para baixo.

O apelo do uniforme foi, porém, mais forte. O desejo de ser mais na vida que um comerciante, viajar pelo império, conhecer a India, o Brasil, Angola, ao invés de ficar preso a um escritório, contando metal e fazendo balanços. O espírito da época, romântico, idealista, liberal, a tudo isso encarreirava na alma do jovem Carlos e o inspirou a seguir a vida militar. 
Em menino, ficara-lhe a memória do rio Tejo e a vista da saída e chegada das naus. Em Faro, ao ir nadar à Ria, próximo ao Poço das Naus, o espírito inquisitivo de Carlos o fazia ficar observando as peças de artilharia de variados calibres armazenadas ali próximo, pondo à prática os cálculos aprendidos com os seus professores. No bom tempo, muito frequente no Algarve, as peças ficam cá fora, para que os artífices nelas pudessem trabalhar.

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

No ambiente de pequena cidade litoral de Faro, o regimento de Artilharia era uma absoluta novidade, tendo apenas sido formado em 1774. Começou por ser constituído por três companhias que vieram, desde logo, do extinto regimento de Artilharia de Lagos, a escassos 80 quilómetros de Faro. Depois vieram as restantes companhias do Porto e de outras guarnições, assim como o seu primeiro comandante, Diogo Ferrier. Não havia, nem nunca chegou a haver um quartel propriamente dito, mas edifícios alugados por toda a cidade, onde se tinha o material, os oficiais e artilheiros.

Na volta para casa, passando pela Praça da Rainha (Jardim Manuel Bívar, hoje), Carlos veria também com alguma frequência o Regimento de Milícias de Faro, treinando a marcha, com a banda tocando, marcando o passo. Com ele, os irmãos João, António, Jorge e o primo João Pedro, todos aproximando-se ansiosamente da idade militar, de correr e conhecer mundo, defender o império e a santa religião.


Os Sargentos Cadetes de Artilharia

Na cavalaria e infantaria, desde 1757 que se aceitavam cadetes nos regimentos, tendo que fazer prova de nobreza. Na artilharia, porém, não havia este sistema, até porque era muito raro ter nobres portugueses a desejar servir nela. A artilharia, assim como a engenharia, era uma arma técnica que só teve, aliás, direito a uniforme, em meados do século. Apesar disso, o alvará de 16 de março de 1757, que criava os cadetes apenas para a infantaria e cavalaria era usado, por analogia, pela artilharia, confirmado oficialmente em 1767. A única diferença estava em que a artilharia não requeria prova de nobreza, mas, geralmente, jovens com boa formação e de famílias burguesas de algum respeito e envolvimento social, além do que estes cadetes tinham de estar nos números, ou quadros, das companhias.

Para a artilharia iam então muitos jovens filhos da burguesia mercantil urbana e a pequena nobreza rural de Lisboa, Porto, Faro e Estremoz, arautos castrenses do crescimento da classe média que apenas desta forma poderia obter o oficialato militar, a patente d’el-Rei. O seu percurso normal era assentar praça como soldado, e passar a cabo de esquadra, furriel e, finalmente, a sargento. Estivessem então em que unidade estivessem, pediam a passagem ao regimento de artilharia local e o reconhecimento como cadetes; nas folhas hoje guardadas pelo Arquivo Histórico Militar, aparecem designações como ‘sargento-cadete’ ou ‘cadete-sargento’, indicando-nos também que era fundamentalmente um termo oficioso. Sendo sargentos-cadetes, era apenas questão de esperar por uma vaga de 2.º tenente, o primeiro posto da carreira de oficial de artilharia. Mesmo assim, em situação de campanha, como no Roussilhão e Catalunha de 1794, cadetes chegaram a comandar batarias, como veremos mais adiante.



Irmãos de Armas

Oficial subalterno, 1793
Regimento de Artilharia do Algarve
(ilust.: Bill Younghusband)

António Pedro e Jorge Frederico

Os dois irmãos mais novos, António Pedro, com 20 anos, e Jorge Frederico, com 18, assentam praça como voluntários e juram bandeiras primeiro, logo em 1788, no Regimento de Infantaria de Tavira, a trinta quilómetros de Faro. Com a sua educação, logo se vêem como sargentos-cadetes na artilharia de Faro, uma característica da artilharia portuguesa, não mais de um ano depois: Jorge a (10 de março de 1788), António a (10 de maio de 1788).


João Pedro

É já quando toda a França muda, mudando com ela a Europa, que os dois irmãos mais velhos decidem se alistar. João Pedro (1766-1844), nascido na rua de S. João da Matta, em Santos-o-Velho, foi primeiro. João, ao contrário dos dois irmãos mais novos, assentou praça diretamente em Faro, onde morava, no regimento de Artilharia do Algarve. Fê-lo a dezembro de 1792 ou janeiro de 1793. Menos de quatro meses depois, embarcavam os três para a Catalunha, apenas Carlos Frederico ficou, assentando praça de voluntário na Fortaleza da São João da Barra de Tavira, apenas um mês após os seus irmãos estarem já embarcados rumo à guerra.

11 de janeiro de 2016

Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças general Carlos Frederico Lecor na Banda Oriental desde 1816 até 1823 (Lobo Barreto)


Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se occupou a Banda Oriental do rio da Prata desde 1816 até 1823 com que a Divisão dos Voluntários Reaes evacuou a praça de Montevidéu (Por uma testemunha ocular)

[As memórias de João da Cunha Lobo Barreto, que foi em tenente de caçadores na Divisão de Voluntários Reais.]