2 de julho de 2017

Lecor aluno universitário na Real Academia de Marinha (1794-1795)


Este blogue chama-se Em Busca de Lecor por uma razão. Sou frequentemente lembrado do porquê. Desde 2005, sensivelmente, que busco constantemente este militar e periodicamente encontro nova informação. Que não nasceu em Faro, como se pensava, mas em Lisboa. Que começou a carreira como Soldado pé-de-castelo em Tavira, de forma a frequentar a aula regimental do tenente coronel Sande de Vasconcelos (um requisito para a promoção a oficial de patente), e mais algumas coisas.

Carlos Frederico Lecor, como ajudante em Portimão e depois como 1.º tenente da Artilharia de Faro, foi admitido e completou o 1.º Ano do Curso de Oficial de Marinha, na Real Academia de Marinha, em Lisboa, no ano lectivo de 1794/1795.

Encontrei a informação disponibilizada em-linha junto do Arquivos Histórico de Itamarati, do Ministério das relações Exteriores da República Federativa do Brasil, através do Rede Memória da Biblioteca Nacional. 
A pasta consiste de variados comprovativos, alvarás e cartas patentes relacionadas a Lecor, que o mesmo fez chegar ao ministério, com toda a certeza para processos relacionados com o cargo de Capitão General da Banda Oriental. Ainda não entrada no futuro Império, como Província Cisplatina, era de jure uma província espanhola ocupada.

Através desta fonte, os primeiros dois postos de Lecor como oficial são inequivocamente nomeados, tendo ele iniciado a frequência da Real Academia já com patente, com o patrocínio do Capitão General do Algarve. Na verdade, Carlos Frederico é o quarto irmão Lecor que D. Nuno Jose Fulgêncio de Mendonça e Moura, 6.º conde de Val de Reis, patrocina.

(Já indiciei no passado que muitos familiares próximos, incluindo o padrinho e tio, eram fornecedores de munição de boca, já desde a Guerra Fantástica, Carlos Frederico Krusse a certa altura responsável pelos fornecimento das tropas nos governos d'Armas do Douro e de Trás os Montes. Outras histórias para outra postagem).

“Atestados de Serviços e Nomeações”
Arquivo Histórico do Itamaraty (cota: AHI REE 00351)

Original (em-linha) [abre janela]
http://acervo.redememoria.bn.br/redeMemoria/handle/123456789/302675


De 5.10.1794 a circa 16.7.1795, frequenta o primeiro ano do curso de Marinha da Real Academia de Marinha, tendo feito exame de Aritmética, “no qual ficou plenamente approvado, para continuar na Aula”. Conclui o ano sendo aprovado em exame, estando habilitado “para passar a ouvir as Liçoens do segundo anno”. Não parece que o venha a fazer, pois em dezembro embarca na Esquadra do Brasil como 1.º tenente de artilharia, destacado do regimento na nau Príncipe Real. 

O Currículo do 1.º ano era constituído pelas seguintes disciplinas: Aritmética, Geometria, Trigonometria plana, o seu uso prático, e os princípios elementares da Álgebra até às equações de 2.º grau inclusivamente.

O curso era equivalente ao ensino universitário, mas por uma razão de exclusividade a Real Academia de Marinha não se podia chamar Universidade (facto que só cessa em 1911, quando as escolas politécnicas de Lisboa e Porto, e outras instituições, se tornam universidade de nome, se já há muito de facto). Será desta altura que Academia se consolida como o termo para as instituições militares universitárias portuguesas, até hoje - Excepção curiosa para a Escola Naval que é uma herdeira direta da real Academia.

[Documento n.º 2] 19 de Janeiro de 1795

Custodio Gomes de Villas boas, Ten.te Coronel do Regimen.to de Art.ª do Porto, com exercicio de lente efectivo da Cadeira do primeiro ano na Real Academia de Marinha

Attesto que Carlos Frederico Lecor, Ajudante de Infantaria, com exercicio na Praça de Villa Nova de Portimão, frequentou com muito zelo, e approveitamento a Aula do primeiro anno, de 5 de Outubro passado até o presente, com duas faltas com justa cauza e que fes o seu exame de Arithmetica, no qual ficou plenamente approvado, para continuar na Aula do primeiro anno do Curso da Marinha. E por assim ser verdade, lhe mandei passar a prezente, que vai por mim assignada, e firmada o sêllo desta Real Academia. Lisboa, 19 de Janeiro de 1795.

[Documento n.º 1] 16 de Julho de 1795

Custodio Gomes de Villas boas, Ten.te Coronel do Regimen.to de Art.ª do Porto, com exercicio de lente efectivo da Cadeira do primeiro ano na Real Academia de Marinha


Attesto que Carlos Frederico Lecor, Primeiro Tenente do Regimento de Artilharia do Algarve, e Discipulo da primeira Aula desta Real Academia de Marinha, tendo frequentado a mesma Aula com duas faltas com justa cauza, fes ultimamente o seu exame, no qual mereceo ser approvado para passar a ouvir as Liçoens do segundo anno. E por assim ser verdade, lhe mandei passar a prezente, que vai por mim assignada, e firmada o sêllo desta Real Academia. Lisboa, 16 de Julho de 1795.


30 de junho de 2017

Onde esteve Lecor entre 21 e 23 de Novembro de 1807, nas suas próprias palavras


Hindo a Alcantara por ordem do meu General a entregar huã carta de V. S.ª a Mr Herman [François-Antoine Herman, Cônsul de França em Lisboa desde 1806, que entretanto se havia retirado] encontrei perto de Villa Velha 

[21.11.1807 – 1600H]
/ antes das quatro oras da tarde do dia 21 do corrente mez hum almocreve d’Alpalhão por nome Jose Fez [Fernandes?] q me deo a noticia de ter entrado hua coluna de sinco mil homens de Tropa Franceza em Castello Branco as dez oras da noite do dia 20 q não fazião mal e q dizião q nos vinhão ajudar contra os Inglezes.
Apresei a marcha para hir certificar-me da noticia, e chegando a Villa Velha não encontrei maior clareza do //que tinha espalhado o mesmo almocreve, e tratando de fazer aprontar huma cavalgadura para hir reconhecer a Tropa a nociado/a não me foi percizo sahir daquele ponto 

[21.11.1807 – 1630H]
/por quanto às quatro oras e meia avistei hum corpo de Tropa Ligeira da força de 200 homens pouco mais ou menos (fardados de Branco) q se deregia para a mesma v.ª pela estrada de Castelo Branco. Rezolvi q não devia hir para diante e q o mais importante era vir dar parte a V. S.ª para evitar que V. A. R. fosse surpreendido. Passei // a Barca para a parte do sul recomendando ao Escrivão da mesma V.ª q me participasse q tropa era, 
[21.11.1807 – 2000H]
o que fez às 8 oras da noite dizendo-me que erão Francezes. Não tendo mais q avreguar esperei q foçe dia para partir n’hum barco q devia largar. 

[22.11.1807 – 0630H]
As seis oras e meia do dia 22 se puzerão os Francezes em marcha tomando a estrada de Abrantes não tendo feito cazo da Barca de V.ª Velha q eu por precaução mandei ficar da parte do sul com recomendação q fosse destruida.

Chegando Abrantes escrevi ao Capp.m Mor e a Diogo Joze de Bivar participando-lhes a entrada dos Francezes e q deregião // à quella villa e q achava a propozito q elles se prestassem de comum acordo com o juiz de Fora para fazerem deser o Tejo a todas as embarcações e Barcas da ponte mandando impossibilitar a Ponte de Punhete para demorar a Tropa Franceza na passage do Zezer e partindo imediattamente 
[23.11.1807 – 0800H]
/cheguei a esta corte as 8 horas do dia 23.


Fonte
"OFÍCIO DO MARQUÊS DE ALORNA PARA ANTÓNIO DE ARAÚJO DE AZEVEDO", Arquivo Distrital de Braga - Coleção Linhares, PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/E/03965

Outras postagens sobre o assunto
Fontes: A Encruzilhada da Memória (Novembro de 1807)

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere

28 de junho de 2017

Apontamentos acerca de evento: Primeira Invasão




PRIMEIRA INVASÃO
ANTECEDENTES

19.2.1806 – Brinco do Alto da Aboboreira.
10.3.1806 – relatório do Brinco do Alto da Aboboreira, perto de Vila Viçosa.
Finais de fevereiro?
1.4.1806 – Lecor está ainda em Belém (na verdade Ajuda, Quartel da Guarda do Corpo, atual Lanceiros 2) a tomar conta da LTL enquanto Von Wiederhold não toma posse.

17.10.1807 – [Franceses, a azul, Corpo de Observação da Gironda] Recebe ordens para entrar em Espanha.
18.10.1807 – Passagem do Bidassoa (?)

9.10.1807 – Carta de Alorna a António de Araujo de Azevedo, dando conta da passagem dos embaixadores francês e espanhol e sua saída do reino. Cartas particulares de Madrid e San Sebastian indicam que se aprontam mantimentos para a passagem de 30 mil franceses. Alorna desconsidera as informações como ainda pouco fidedignas (‘De longe e para longe’). Sem data, a primeira divisão francesa já teria passado por Olite (?) em Navarra.

Desde o início de novembro que Alorna tinha ordens para observar os franceses em Alcântara. (KENNETH LIGHT)

Th = THIEBAULT

Faz sentido, pois a raia de Castelo Branco – Alcantara estava entre dois governos de armas, o da Beira, a que pertencia em termos territoriais, com o seu comando no eixo Viseu – Almeida, e o do Alentejo, em Vila Viçosa-Elvas. A maior proximidade, assim como a ponte de barcas em Vila Velha faziam com que o governador d’armas do Alentejo fosse o comando mais perto, capaz de projetar espias sobre a estrada de Castelo Branco a Abrantes.

12.11 – Saiem de Salamanca para Alcantara, em 5 dias. Junot chega a Alcantara dois dias antes. (15nov ?)

14.11 – Aviso da Secretaria a, pelo menos, o Governador interino da Beira.

17.11 – informados, em Alcantara, que em 48 horas entrarão em Portugal.

18.11 (tarde) – Um soldado do RegMil de Castelo Branco avista tropas espanholas em Zebreira, preparando quartéis para tropas francesas.

19.11 – tropas ligeiras entram em Segura.
19.11 – (1600h) Cor. Joaquim Rebelo de Trigueiros Martel, comandante do RegMil de Castelo Branco, escreve da Idanha a Nova, para o Governador d’Armas interino da Beira, Florêncio José Correia de Melo.

20.11 – Entram a 1.ª e 2.ª Divisões de Infantaria + Carafa
ENTRAM OS PRIMEIROS QUANDO?
20.11 – 2200h. Tropas francesas (5000 homens) entram em Castelo Branco.
O resto do exército vaiou o Erges, nos dias seguintes, junto a Salvaterra do Extremo
Castelo Branco. Acúrsio das Neves fala de Segura, mas pelo que deixa entender, todo o Corpo por lá terá passado, não tendo menção de Salvaterra, mas apenas que estariam muito atrasados e em grupos isolados.
20.11 – Alorna refere que Bocaciari lhe havia informado, desde Marvão, que a vanguarda francesa que tinha chegado a Alcântara, se havia extendido a Valença.

21.11 – 1600h. Lecor em Vila Velha ouve o almocreve José Fez (Fernandes?) (orig. Alpalhão) que diz que os franceses entraram em Castelo Branco às 8 da noite. “q não fazião mal e q dizião q nos vinhão ajudar contra os Inglezes”. Lecor ia de Montalvão para Vila Viçosa, em diligência (carta a Mr. Herman, em Alcantara; Alorna diz que Lecor que devia hir de Montalvão a este quartel).
21.11 – 1630h. Lecor encontra logo após sair de Vila Velha (“não me foi percizo sahir daquele ponto”) 200 tropas ligeiras, fardadas de branco. Lecor decide nesse momento que não vale a pena ir além e que devia avisar o Principe Regente: “para evitar que V. A. R. fosse surpreendido”. Foi depois para a margem sul do rio Tejo pela barca de Vila Velha.
21.11 – 2000h. O escrivão de Vila Velha confirma-lhe que as tropas eram francesas. Ficou à espera do próximo barco que largasse.

Rezolvi q não devia hir para diante e q o mais importante era vir dar parte a V. S.ª para evitar que V. A. R. fosse surpreendido. Passei // a Barca para a parte do sul recomendando ao Escrivão da mesma V.ª q me participasse q tropa era, o que fez às 8 oras da noite dizendo-me que erão Francezes. Não tendo mais q avreguar esperei q foçe dia para partir n’hum barco q devia largar.”

21.11 - Envia nota a lápis a Alorna, informando da sua decisão de ir a Lisboa. Lecor “escreveme de Villa Velha huma carta em lapes, dizendo-me que por ter visto francezes na dita Villa Velha, se rezolvia a hir a Lisboa dar parte.”

V S.ª lá saberá se a rezolução deste oficial foi boa, e se o foi devese inteiramente a elle, porque a tomou sobre si.” (Alorna, 23.11)

Alorna está cético de que a invasão já tenha começado. Fala do histerismo e pânico do povo. A comunicação de Lecor, “a lapes”, a 21, é que começa a criar alguma cautela a Alorna, que promete enviar gente a Alcantara, Valença de Alcantara e a Vila Velha.

22.11 – Às 0630h da manhã, os franceses puseram-se em marcha pela estrada de Abrantes, “não tendo feito cazo da Barca de V.ª Velha q eu por precaução mandei ficar da parte do sul com recomendação q fosse destruida”. Lecor passa o Tejo para norte de dia, no primeiro barco.


Punhete (hoje, Constância)


22.11 – Lecor chega a Abrantes e avisa as autoridades locais, recomendando-lhes que descessem os barcos todos ao rio e impossibilitassem a ponte de barcas de forma a retardar o invasor.

Fez desviar os barcos do Zêzere, o que retardou a marcha do inimigo’ – António de Araújo

23.11 – 0800h. Lecor chega a Lisboa. (demora cerca de 24 horas, parando em Abrantes). Apesar de residir em Mafra, o PR vinha despachar frequentemente ao Palácio da Ajuda. Na verdade, foi a casa do Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, António Araújo de Azevedo.
23.11 – Serão. Guarda avançada entra em Abrantes

24.11 – Franceses chegam a Abrantes. Guarda avançada chega na noite de 23. Ac, 1999: Vanguarda entra em Abrantes às 1500, do dia 23.
24.11 – Junot entra em Abrantes de manhã.
24.11 – O Governador d’Armas interino da Beira escreve ao Secretário D. António de Araújo. Sabe da carta do coronel de Milícias de Castelo Branco às 15 horas. A carta demorou 4 dias a ir de Idanha a Nova a Viseu. Deve ter demorado mais ainda a chegar a Lisboa, decerto já a corte estaria embarcada.
24.11. – última reunião do Conselho de Estado antes do embarque.
24.11 – Ajuda. “Mr Menil entrou como parlamentar em Lisboa no dia 24 de novembro, e entregou seus despachos a Mr. De Araújo no mesmo momento em que S.A.R. recebia de tres pessoas differentes, e principalmente do general Lecor, a noticia de que a vanguarda do exercito Francez já estava em Abrantes, isto he, na distancia de vinte legoas de Lisboa.
Convocou-se imediatamente um conselho de Estado e S.A.R. decidio-se a embarcar para o Brazil pelos votos unanimes de todos os membros do conselho.”
pp.193-194: “As Quatro Coincidências de Datas” in: O Campeão Portuguez 1.9.1819 (tradução de um folheto impresso em Paris, 1819)


26.11 – Vanguarda avança para Punhete.
Santarém, 26.11.1807 – Em Santarém, foi para a Golegã. Os franceses estão em Punhete. Escreveu uma carta de Santarém (um dos correios – o primeiro?). Não tinha verificado ainda a verdadeira posição dos franceses, o que pretende fazer na Golegã.
26.11 – Família Real em Queluz antes, D. João vai para lá.

TRAVESSIA FRANCESA DO ZEZERE

27.11 – Passam o Zêzere. Encontro de Junot com José de Oliveira Barreto (que escreve carta em Golegã indicando que se encontraria com Junot a 26, em Punhete).
Ac204 – Junot dormiu na Golegã.

The bridge could not be completed before one half of the army had reached the opposite bank”.

Cartaxo, 27.11.1807 – franceses em Punhete, Campos da Golegã alagados. Não chegam a Santarém antes de 28:

Illmo. e Exmo. Senhor
Depois q tive ontem a honra de escrever a V. Ex.ª de Sattarem [sic], marchei para a Golegam a certificarme da verdadeira pozição do Exerçito Francez, e ali vim no conheçimento que ainda se achavam em Punhete: assim não he provavel que possão chegar a Sattarem antes de amanhãa, acresendo o embaraço q lhe cauzara para a sua marcha o estado quase inpraticavel dos campos da Golegam. He quanto por ora se me offresse q possa participar a V. Ex.ª,
Ds Gde a V. Ex.ª. Cartacho 27 de Novembro 1807
Carlos Frederico Lecor”

27.11 – A família real começa a embarcar ao princípio da tarde. Belém. Sai de Queluz ao meio dia, chegam ao Largo de Belém.
Hum rigo temporal cerrava a barra (Ac, 177) – nada sai
Nas praias de Belém, havia ainda pouca gente quando chegou a primeira carruagem da Casa Real, dado que se ignorava em Lisboa a hora da partida. Lisboetas de todos os sexos e idades, tristes e consternados, aglomeravam-se mais e mais, para verem algo que nunca pensariam antes ser possível: o Príncipe Regente, a Rainha, toda a família real, embarcar, partir do reino em exílio.

ACURSIO DAS NEVES 175-176: “Em Quéluz toda a manhã [D. Carlota Joaquina] tinha sido incansável em arranjar a família, e dar todas as providencias, que as circunstancias exigião: sobre o caes de Belem estava ella mesmo fazendo embarcar as criadas, e mais pessoas da comitiva, segundo a ordem, que lhes destinava, com uma presença de espírito inimitavel”

28.11 – Junot jantou em Santarém, na casa do Capitão Mor de Aviz. Previsão de Lecor do dia 27 certa. Deu molho... (ver Acúrcio)
28.11 – Hum rigo temporal cerrava a barra (Ac, 177) – nada sai


28/29.11 – Junot no Cartaxo. À 1 da manhã recebe a notícia que D. João havia embarcado.

29.11 - Parte a esquadra. Amanhecer, tempo sereno e hum vento favorável.
29.11 – Chegam a Sacavém às 20 ou 21. (Ac:206)
30.11 – Entram em Lisboa (4 batalhões). 9 horas portas de Lisboa.

Benfica - 8-10 dias que não se despia [30NOV/1DEZ] Fronteira

28 ou 29.11 – Lecor volta a Lisboa com o quarto correio. Ao chegar, ou assiste ou sabe da partida (António de Araújo). Vai a Benfica (ceia) e depois atravessa, na mesma noite, o Tejo numa barca e retorna a Vila Viçosa. No alforge, Lecor leva ordens do Príncipe Regente para que receba os franceses e espanhois como aliados, que não lhes fizesse guerra e que lhes abrisse as portas das praças.. [cit do que é um soldado]

Sei que Lecor só tem tempo de visitar brevemente o Palácio de Benfica e que retornou logo a Vila Viçosa.


20 de outubro de 2016

Leituras: blogue Os Voluntários Reaes: 1814-1824



Sugestão de leitura
OS VOLUNTÁRIOS REAES
blogue

No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824. 

Comemorando o bicentenário da campanha de Montevidéu 1816-2016

http://dvr18151823.blogspot.pt/

13 de janeiro de 2016

Do nascimento e família



Vista da Rua das Trinas, Lisboa, à entrada 
da actual (então rua) do Pé de Ferro
Lecor


ORAÇÃO 
‘Deos Mestre das sciencias, que as escondestes aos grandes do mundo, 
e que as revelastes aos pequenos, fazei-nos a graça de que tomemos o estudo 
por penitencia, a fim que o que aprendermos seja sem erro, e sem vaidade.’
Luiz Pedro Lecor, Lição XL, das obrigações de hum menino Cristão. Educação de Meninos, 1746

Carlos Frederico Lecor, mais propriamente Carolus, como escrito no seu assento de batismo, nasce a 6 de Outubro do ano de 1764, na rua Pé de Ferro (hoje travessa), no bairro de Santos-o-Velho, na zona ocidental de Lisboa. A sua mãe é D. Quitéria Luísa Marina Krusse Lecor, 20 anos, de Vila Nova de Portimão. O pai é Luiz Pedro Lecor, de Paris, próximo dos quarenta anos de idade.

Nascida a paróquia de Santos-o-Velho da Praia ribeirinha, todas as suas casas e ruas descem sobre o rio Tejo; a paróquia não dista 50 passos de um lado ao outro. Em 1758, apenas seis anos antes de Carlos nascer, e três após o grande terremoto de 55, Santos-o-Velho tinha 1836 fogos, e 8403 pessoas de confissão, além de mais de mil, os hereges e não constados do rol de confissões. Este número era em 1758 já superior, apenas três anos após a catástrofe.

Carlos foi batizado nessa mesma igreja paroquial, catorze dias após o seu nascimento. O seu padrinho e também seu tio materno, Carlos Frederico Krusse, deu-lhe os nomes próprios. A sua tia, D. Vitória Berarda Marciana Krusse, de 19 anos, foi a madrinha.

Nos anos seguintes, ainda em Santos, nascem os irmãos de Carlos. João Pedro nasce dois anos depois, a 7 de Outubro de 1766, a pequena família agora residindo na rua São João da Matta, a um pequeníssimo quarteirão da rua Pé de Ferro. António Pedro, a 6 de Setembro de 1768, Jorge Frederico e Maria Leocádia Leonor, muito possivelmente em 1770 e 1772.

Carlos Frederico e os seus quatro irmãos  nascem numa família alargada de comerciantes e homens de negócios, de múltiplas origens europeias, como os Buys, de Hoorn, na Holanda, os Krusse, de Hamburgo, ou os Lecor, de Paris e Marselha. A própria natureza dos negócios destas famílias os fazia estar frequentemente nesses portos europeus, embora tivessem escolhido Portugal para assentar e criar família.

Os Krusse

Hamburgo (1)
A profícua prole de Nikolaus Krusse e D. Catarina Maria Buys, os avós maternos de Carlos, nasceu entre 1733 e 1750 em Portimão. Tiveram sete filhos. Nikolaus, ou Nicolao, era um negociante proveniente de Hamburgo que assenta raízes familiares em Portimão, casando-se com D. Catarina Maria.
Nikolaus passou primeiro por Pernambuco, nos anos 20 do século, no El Dorado brasileiro, onde era sócio de um Pedro Graaf, holandês, mas num processo iniciado em 1726, motivado por alguns comerciantes portugueses descontentes, foram ambos chamados a Lisboa. Ficou definido que em razão das nacionalidades e respetivas implicações diplomáticas, Pedro Graaf poderia ficar, mas já Nikolaus Krusse deveria abandonar a praça. Fê-lo, a contragosto, no início de 1730, montando loja em Portimão.
Tiveram nessa cidade algarvia em 1733 o seu primogénito, Carlos Frederico Krusse, tio-padrinho de Lecor, e mais seis filhos, incluíndo a mãe de Carlos, D. Quitéria Marina, em 1744, e a madrinha, D. Vitória Berarda, um ano depois.

Carlos Frederico Krusse assume o negócio de seu pai, desde que este falece, em 1758, em Santos-o-Velho. É bastante provável que a família tenha vindo para Lisboa, após o Terremoto de 1755 ter destruído boa parte de Portimão, assim como provocado estragos substanciais na maior parte das terras litorais do Algarve. A Igreja paroquial da Nossa Senhora da Conceição, no centro de Portimão – onde pelos menos seis  Krusse foram batizados, era no final de 1755, apenas ruínas.
Ainda assim, o Algarve manteve sempre a sua importância nos negócios da família, nomeadamente a exportação de alfarroba e alecrim para o Norte da Europa e o envio de trigo alentejano pelo Guadiana para Lisboa. Forma, pelo menos desde a década de 1770, a Costa, Krusse e Companhia, com Manuel José Gomes da Costa, importante negociante da praça de Faro. Esta sociedade, para lá da exportação de produtos algarvios, emprestava dinheiro, estabelecendo com força a identidade social de homens de negócio, que trabalham a grosso, e já longe do simples retalho. Carlos Frederico Krusse é também cônsul da Holanda em Faro.

Os Buys

Hoorn, Holanda
A avó materna de Carlos, D. Catarina Maria Buys Krusse, era filha de Jan Pieter Buys, holandês, e de D. Maria Teresa, espanhola  de Huelva (Guelba, dir-se-ia então), em Espanha.  Jan Pieter, grafado João Pedro nos documentos, veio da cidade holandesa de Hoorn (a norte de Amsterdão) para Portugal, assentando raízes em Faro, no reino do Algarve.
António Pedro Buys, irmão de D. Catarina e tio de Carlos, teve, com D. Teresa Maria cinco filhos, todos sensivelmente da mesma geração de Carlos, e que convivendo em Faro, partilharam as brincadeiras com os primos Lecor. João Pedro, primogénito e herdando o nome do avô, nasce em março de 1765, sendo apenas cinco meses mais novo que Carlos Frederico. Vitória Teresa nasce em 1769 e Germana Máxima Guilhermina em 1771.

O mais velho, João Pedro Buys, assume mais tarde os negócios da família, em 1794, após o falecimento do seu pai, constituindo sociedade com Carlos Frederico Krusse. Ambos eram donos de uma frota de caíques  que leva  trigo dos portos alentejanos do Guadiana para Lisboa. Ainda antes, em 1791, é cônsul de França no Algarve, facilitando a comunicação entre mercadores. João será também tenente-coronel do Regimento de Milícias de Faro. O seu compromisso com a sociedade farense é claro, não só pelo referido acima, mas pelas inúmeras ocasiões em que João é padrinho de batismo, tanto na Sé, como em S. Pedro. É ele que representa a Junta de Faro na revolta de 1808, juntos dos barcos ingleses, em virtude de ter bom domínio da língua inglesa.

(1) Aquarell "Prospekt der Kaiserlich Französischen Stadt Hamburg" von Johann Marcus David, 1811

12 de janeiro de 2016

O Apelo d'Armas, ou uma família de Portugueses no início das Guerras Revolucionárias

O Apelo d'Armas


P: Como se chamão aquelles, q trazem espada para o serviço do Estado? 
R: Chamão-lhes gente de guerra, ou soldados.
Luiz Pedro Lecor, Lição XXX, das Leys Humanas. Educação de Meninos, 1746

Faro, Novembro de 1793.

Por esta altura, finais da década de 1780, uma mudança começava a fazer-se notar na sociedade portuguesa, fruto das convulsões políticas europeias, produto da onda de choque que foi a Revolução Americana.

É assim que, em 1787, mais por causa dos piratas do Norte de África do que propriamente da situação europeia, o Conde de Vale dos Reis, capitão-general dos Algarves, escreve uma carta à rainha D. Maria pedindo a construção de quartéis para o regimento de artilharia de Faro, ainda na sua maioria aboletado nas casas de cidadãos, desde que fora formado em 1776. Se esta carta é escrita a 27 de Novembro, logo a 1 de Dezembro, a vereação de Faro dá início a uma petição, recolhendo as assinaturas de quem estava nas Casas da Câmara, e depois indo às ruas chamar os que cidadãos que lá se achassem a assinar a importante petição. Entre as várias assinaturas, temos Carlos Frederico Krusse, ao topo, e Carlos Frederico Lecor e João Pedro Buys, mais para baixo.

O apelo do uniforme foi, porém, mais forte. O desejo de ser mais na vida que um comerciante, viajar pelo império, conhecer a India, o Brasil, Angola, ao invés de ficar preso a um escritório, contando metal e fazendo balanços. O espírito da época, romântico, idealista, liberal, a tudo isso encarreirava na alma do jovem Carlos e o inspirou a seguir a vida militar. 
Em menino, ficara-lhe a memória do rio Tejo e a vista da saída e chegada das naus. Em Faro, ao ir nadar à Ria, próximo ao Poço das Naus, o espírito inquisitivo de Carlos o fazia ficar observando as peças de artilharia de variados calibres armazenadas ali próximo, pondo à prática os cálculos aprendidos com os seus professores. No bom tempo, muito frequente no Algarve, as peças ficam cá fora, para que os artífices nelas pudessem trabalhar.

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

No ambiente de pequena cidade litoral de Faro, o regimento de Artilharia era uma absoluta novidade, tendo apenas sido formado em 1774. Começou por ser constituído por três companhias que vieram, desde logo, do extinto regimento de Artilharia de Lagos, a escassos 80 quilómetros de Faro. Depois vieram as restantes companhias do Porto e de outras guarnições, assim como o seu primeiro comandante, Diogo Ferrier. Não havia, nem nunca chegou a haver um quartel propriamente dito, mas edifícios alugados por toda a cidade, onde se tinha o material, os oficiais e artilheiros.

Na volta para casa, passando pela Praça da Rainha (Jardim Manuel Bívar, hoje), Carlos veria também com alguma frequência o Regimento de Milícias de Faro, treinando a marcha, com a banda tocando, marcando o passo. Com ele, os irmãos João, António, Jorge e o primo João Pedro, todos aproximando-se ansiosamente da idade militar, de correr e conhecer mundo, defender o império e a santa religião.


Os Sargentos Cadetes de Artilharia

Na cavalaria e infantaria, desde 1757 que se aceitavam cadetes nos regimentos, tendo que fazer prova de nobreza. Na artilharia, porém, não havia este sistema, até porque era muito raro ter nobres portugueses a desejar servir nela. A artilharia, assim como a engenharia, era uma arma técnica que só teve, aliás, direito a uniforme, em meados do século. Apesar disso, o alvará de 16 de março de 1757, que criava os cadetes apenas para a infantaria e cavalaria era usado, por analogia, pela artilharia, confirmado oficialmente em 1767. A única diferença estava em que a artilharia não requeria prova de nobreza, mas, geralmente, jovens com boa formação e de famílias burguesas de algum respeito e envolvimento social, além do que estes cadetes tinham de estar nos números, ou quadros, das companhias.

Para a artilharia iam então muitos jovens filhos da burguesia mercantil urbana e a pequena nobreza rural de Lisboa, Porto, Faro e Estremoz, arautos castrenses do crescimento da classe média que apenas desta forma poderia obter o oficialato militar, a patente d’el-Rei. O seu percurso normal era assentar praça como soldado, e passar a cabo de esquadra, furriel e, finalmente, a sargento. Estivessem então em que unidade estivessem, pediam a passagem ao regimento de artilharia local e o reconhecimento como cadetes; nas folhas hoje guardadas pelo Arquivo Histórico Militar, aparecem designações como ‘sargento-cadete’ ou ‘cadete-sargento’, indicando-nos também que era fundamentalmente um termo oficioso. Sendo sargentos-cadetes, era apenas questão de esperar por uma vaga de 2.º tenente, o primeiro posto da carreira de oficial de artilharia. Mesmo assim, em situação de campanha, como no Roussilhão e Catalunha de 1794, cadetes chegaram a comandar batarias, como veremos mais adiante.



Irmãos de Armas

Oficial subalterno, 1793
Regimento de Artilharia do Algarve
(ilust.: Bill Younghusband)

António Pedro e Jorge Frederico

Os dois irmãos mais novos, António Pedro, com 20 anos, e Jorge Frederico, com 18, assentam praça como voluntários e juram bandeiras primeiro, logo em 1788, no Regimento de Infantaria de Tavira, a trinta quilómetros de Faro. Com a sua educação, logo se vêem como sargentos-cadetes na artilharia de Faro, uma característica da artilharia portuguesa, não mais de um ano depois: Jorge a (10 de março de 1788), António a (10 de maio de 1788).


João Pedro

É já quando toda a França muda, mudando com ela a Europa, que os dois irmãos mais velhos decidem se alistar. João Pedro (1766-1844), nascido na rua de S. João da Matta, em Santos-o-Velho, foi primeiro. João, ao contrário dos dois irmãos mais novos, assentou praça diretamente em Faro, onde morava, no regimento de Artilharia do Algarve. Fê-lo a dezembro de 1792 ou janeiro de 1793. Menos de quatro meses depois, embarcavam os três para a Catalunha, apenas Carlos Frederico ficou, assentando praça de voluntário na Fortaleza da São João da Barra de Tavira, apenas um mês após os seus irmãos estarem já embarcados rumo à guerra.

11 de janeiro de 2016

Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças general Carlos Frederico Lecor na Banda Oriental desde 1816 até 1823 (Lobo Barreto)


Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se occupou a Banda Oriental do rio da Prata desde 1816 até 1823 com que a Divisão dos Voluntários Reaes evacuou a praça de Montevidéu (Por uma testemunha ocular)

[As memórias de João da Cunha Lobo Barreto, que foi em tenente de caçadores na Divisão de Voluntários Reais.]